Queria que todo mundo andasse a pé ou de bicicleta, todo mundo ia poder
se cumprimentar, desejar bom dia, as ruas cheias de gente e não de carros
apressados. Dava uma vontade de dividir aquelas sensações com quem estivesse
com pressa ou com mau humor, ou triste, ou preocupado, porque tudo passa,
inclusive sensações, sejam elas boas ou ruins. Tudo é tão passageiro,
transitório, que só resta aproveitar cada sentimento como se fosse único.
Ao chegar, fui para a cozinha. Tomei um cafezinho e fui ao quintal ver a
Princesa. Avisei a empregada que ia dar uma voltinha com ela até que todos se
levantassem. O italiano, que parecia acordar sempre cedo, entrava na cozinha no
momento que eu saía e a tempo de nos dizermos um bom dia frio.
A princesa bagunçou todos os canteiros, mas como não havia muita coisa
plantada neles, o problema era mesmo o espalhar de terra que deixava tudo sujo.
Demos uma volta rápida, o suficiente para que ela espairecesse um pouco e que
ficasse mais tranqüila durante a jornada. Na pracinha havia muitas crianças e
outros cachorros fazendo seu passeio matinal.
Ao retornarmos, o chefe já estava no escritório. Da janela da frente nos
desejamos bom dia e ele demonstrou um certo ar de graça, por me ver sendo
arrastada pela lindíssima dálmata, merecidamente nomeada Princesa. Levei-a para o quintal e a prendi em
uma árvore que havia ali. Voltei à cozinha e perguntei se poderia ajuntar a
terra e organizar a área. A loirinha me olhou com estranheza e certo desdém, talvez
pelos trabalhos que me cabia executar.
Ficar ali naquela área ampla e aberta não era menos agradável que ficar
dentro de casa acompanhando as constantes alterações de humor dos seus membros.
Além disso, era possível acompanhar todo o movimento através de uma enorme
porta de vidro que servia de parede entre os dois ambientes. Como a princesa
estava presa, tomei a liberdade de abri-las para desobstruir o ambiente,
permitir com que o ar circulasse. O dono saiu do escritório e veio conferir os
movimentos, talvez com a intenção de interrompê-los, mas olhou com curiosidade
e aprovação.
Tendo tirado toda a terra espalhada, resolvi checar o corredor externo
que dava para as janelas dos quartos. A Princesa fazia ali suas necessidades.
Resolvi recolher tudo, uma vez que estaria ajudando a empregada, que passava
toda a manhã envolvida com o almoço.
Enquanto jogava água, a moça
abriu a janela e nos cumprimentamos com simpatia recíprocra. Estava vestida com roupas pretas e penteava
os cabelos lisos e negros, nem longos, nem curtos. Era uma moça forte, não
parecia abatida pela tal “overdose”.
Depois de lavada toda a área, empilhei algumas pedras que estavam
espalhadas, adquirindo um aspecto de novena para pedir chuva. Lavei-as com
melancolia.
Percebi que a garota saíra do
quarto com uma sacolinha cheia de lixo, provavelmente estava comendo guloseimas
por lá. Demorou alguns minutos na cozinha; depois atravessou o salão e veio para
a área. Lá, brincou com a Princesa, disse que era linda e lhe fez um carinho.
Depois foi para a sala de estar e sentou-se. O ar entrava gostosamente e dava
vontade de ouvir uma música meio alegre, meio triste, melancólica, talvez.
Percebi uma tatuagem na sua panturrilha, era o rosto de seu pai, com
penacho na cabeça, deixando-o ainda mais belo do que parecera no dia anterior; um
guerreiro do continente perdido, como costumam dizer os místicos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário