quinta-feira, 22 de maio de 2014

Queria que todo mundo andasse a pé ou de bicicleta, todo mundo ia poder se cumprimentar, desejar bom dia, as ruas cheias de gente e não de carros apressados. Dava uma vontade de dividir aquelas sensações com quem estivesse com pressa ou com mau humor, ou triste, ou preocupado, porque tudo passa, inclusive sensações, sejam elas boas ou ruins. Tudo é tão passageiro, transitório, que só resta aproveitar cada sentimento como se fosse único.

Ao chegar, fui para a cozinha. Tomei um cafezinho e fui ao quintal ver a Princesa. Avisei a empregada que ia dar uma voltinha com ela até que todos se levantassem. O italiano, que parecia acordar sempre cedo, entrava na cozinha no momento que eu saía e a tempo de nos dizermos um bom dia frio.
A princesa bagunçou todos os canteiros, mas como não havia muita coisa plantada neles, o problema era mesmo o espalhar de terra que deixava tudo sujo. Demos uma volta rápida, o suficiente para que ela espairecesse um pouco e que ficasse mais tranqüila durante a jornada. Na pracinha havia muitas crianças e outros cachorros fazendo seu passeio matinal.
Ao retornarmos, o chefe já estava no escritório. Da janela da frente nos desejamos bom dia e ele demonstrou um certo ar de graça, por me ver sendo arrastada pela lindíssima dálmata, merecidamente nomeada  Princesa. Levei-a para o quintal e a prendi em uma árvore que havia ali. Voltei à cozinha e perguntei se poderia ajuntar a terra e organizar a área. A loirinha me olhou com estranheza e certo desdém, talvez pelos trabalhos que me cabia executar.
Ficar ali naquela área ampla e aberta não era menos agradável que ficar dentro de casa acompanhando as constantes alterações de humor dos seus membros. Além disso, era possível acompanhar todo o movimento através de uma enorme porta de vidro que servia de parede entre os dois ambientes. Como a princesa estava presa, tomei a liberdade de abri-las para desobstruir o ambiente, permitir com que o ar circulasse. O dono saiu do escritório e veio conferir os movimentos, talvez com a intenção de interrompê-los, mas olhou com curiosidade e aprovação.
Tendo tirado toda a terra espalhada, resolvi checar o corredor externo que dava para as janelas dos quartos. A Princesa fazia ali suas necessidades. Resolvi recolher tudo, uma vez que estaria ajudando a empregada, que passava toda a manhã envolvida com o almoço.
               Enquanto jogava água, a moça abriu a janela e nos cumprimentamos com simpatia recíprocra.  Estava vestida com roupas pretas e penteava os cabelos lisos e negros, nem longos, nem curtos. Era uma moça forte, não parecia abatida  pela tal “overdose”.
Depois de lavada toda a área, empilhei algumas pedras que estavam espalhadas, adquirindo um aspecto de novena para pedir chuva. Lavei-as com melancolia.
 Percebi que a garota saíra do quarto com uma sacolinha cheia de lixo, provavelmente estava comendo guloseimas por lá. Demorou alguns minutos na cozinha; depois atravessou o salão e veio para a área. Lá, brincou com a Princesa, disse que era linda e lhe fez um carinho. Depois foi para a sala de estar e sentou-se. O ar entrava gostosamente e dava vontade de ouvir uma música meio alegre, meio triste, melancólica, talvez.

Percebi uma tatuagem na sua panturrilha, era o rosto de seu pai, com penacho na cabeça, deixando-o ainda mais belo do que parecera no dia anterior; um guerreiro do continente perdido, como costumam dizer os místicos.

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