sábado, 3 de maio de 2014

 É claro que desejamos nos relacionar bem com as pessoas com as quais trabalhamos; travar conhecimentos, ser agradável por gentileza, por educação. Mas existem pessoas que são intratáveis por formação. Eu estava no barco e não ia pular fora naquela altura, depois de um dia daqueles.
Aquele senhor era muito rude no seu tratamento com aquelas pessoas. Desconfiava de todos. Não demonstrava nenhuma consideração ou amizade por nenhuma delas, exceto o italiano, talvez porque o considerava de seu nível sócio-cultural. Tratava-se de um funcionário aposentado do governo italiano, e ocupava cargo de importância. Era divorciado, tinha um filho que já era independente, formando e que já havia passeado aqui mais de uma vez. Frio e com ar superior, não se alterava em nenhum momento, exceto quando falava dos monumentos de Roma:
- As esculturas são tão perfeitas que parecem vivas. Podemos perceber suas expressões de tal forma, que dá pra entender o que querem nos dizer - disse com seu português incompreensível.
Sua opinião sobre as brasileiras não eram muito respeitosas:
- Aqui é mesmo a terra das mulheres bonitas! Conseguimos com elas o que precisamos gastar a vida toda para conseguir com as européias. Aqui elas estão sempre disponíveis e um presentinho as faz ceder ainda mais facilmente. São calientes.
- Não é muito gentil saber que somos valorizadas pela caliência e disposição para o exercício sexual, desprovidas de faculdades morais e intelectuais - arrisquei afrontá-lo, pois me senti diretamente ofendida com a sua opinião; disse-lhe ainda que aqui existem muitas mulheres fortes e batalhadoras que enfrentam muitas barreiras para conquistarem seu espaço, mas que talvez ele não tivera a oportunidade de se relacionar com as desse nível. Seu  conceito machista era ultrapassado e equivocado, servia apenas para dificultar o desenvolvimento das mulheres, impedindo que exerçam os papéis que lhes são de direito, enquanto ser humano, independente de serem mulheres, quando são vistas como objetos.

 - Não podemos engolir essas opiniões que nos subestimam dessa maneira.
 - Claro que existem aquelas que favorecem essas opiniões depreciativas, mas não podem generalizar!
- Esses senhores devem aprontar bastante!
- Eles trazem mulheres pra cá, fazem a maior festa.
- Imagino! Esse senhor é muito antipático. Não é porque eles só conhecem vagabundas que todas têm que ser. Ele é muito metido a superior, essa cara branca, olha a gente de cima.
- Não, ele não é assim não, você vai ver!
- Sei não! Não gostei do jeito que ele fala. Parece pensar que é melhor que todo mundo.
- Não sabe o que a gente passa.
- Será que são todos assim, os europeus?
- Sei lá! Mas ele é legal, você vai mudar de idéia.
- Vou embora agora. Amanhã eu te ajudo, não tem nada pra fazer aqui.

- Tá bom! Até amanhã então.

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