domingo, 4 de maio de 2014

De volta pra casa com impressões pesadas, um sentimento de surpresa e decepção insistia em prevalecer. A intuição dizia que dias complicados naquela casa estavam por vir. Um desejo enorme de não voltar nunca mais me invadiu completamente e eu soube naquele momento que aquela vontade estaria comigo o tempo todo nos próximos dias. Iria enfrentá-la, apesar de tudo que viesse a se passar naquele cenário estranho, uma vez que havia começado.
Procurei deixar as sensações desagradáveis se desvanecerem. Final de tarde é sempre uma hora muito especial e apropriada para  esquecer as impressões da jornada, sempre longa e cheia de disparidades que abalam e afetam nossas estruturas. Se permitirmos que todos os acontecimentos nos choquem e fiquem impressos no nosso interior, talvez nosso ser fique pesado demais, a ponto de dificultar nossa mobilidade.
Final de tarde é sempre muito agradável. O ar fresco e as cores vibrantes do horizonte. A brisa que sopra delicadamente suavizando as impressões, devolvendo a leveza que refresca a alma e reorganiza as emoções e os pensamentos. Seu olhar pode se elevar acima dos carros, das construções e do movimento das ruas e se estender sobre aquilo que é natural, imenso e imutável. As cores resplandecentes do pôr sol e a grandeza do infinito te libertam de tudo que é momentâneo, passageiro e transitório.
Os pensamentos recuperam a fluidez até atingir a grandeza de não pensar, como diz a poetisa. Então você pode perceber todas as coisas sem se prender a nenhuma.
Antes de chegar em casa dou uma passada na casa de um grande amigo e vizinho.
Interfono:
- Oi! Sou eu!
- Sobe ai!
 Rapidamente, subo as escadas e entro.
- E aí?
-Beleza! Vocês vão pro Campus hoje? Ta rolando o congresso, com certeza vai ter show a noite.
- Vamos lá então, ver qual é.
- Comecei um trampo hoje. Um pessoal que faz parte da organização do festival. Vamos pra lá na quarta feira que vem.
- Ah! Legal.
- O pessoal é bem estranho, viu? Umas bonitinhas, uma empregada meio doida e o chefe, bem nervoso, digamos assim. Pensa que o mundo inteiro é contra ele. Tem um hóspede italiano que sabe que é romano, sabe como?
- Mas o cara  é de Roma?
- O cara tem um ar superior, arrogante, inatingível; uma postura inalterável sabe? Ele acha que brasileiro é inferior, foi o que eu entendi.
- Estrangeiro sempre pensa que brasileiro é inferior, pra eles qui não passa de um paraíso sexual e os brasileiros são uns preguiçosos e incapazes.
- Esquece o romano! Vou em casa tomar um banho, dar uma descansada.
- Lá pelas oito eu passo lá.

- Ta! 

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