De volta pra casa com impressões pesadas, um sentimento de surpresa e decepção
insistia em prevalecer. A intuição dizia que dias complicados naquela casa
estavam por vir. Um desejo enorme de não voltar nunca mais me invadiu
completamente e eu soube naquele momento que aquela vontade estaria comigo o
tempo todo nos próximos dias. Iria enfrentá-la, apesar de tudo que viesse a se passar
naquele cenário estranho, uma vez que havia começado.
Procurei deixar as sensações desagradáveis se desvanecerem. Final de
tarde é sempre uma hora muito especial e apropriada para esquecer as impressões da jornada, sempre
longa e cheia de disparidades que abalam e afetam nossas estruturas. Se
permitirmos que todos os acontecimentos nos choquem e fiquem impressos no nosso
interior, talvez nosso ser fique pesado demais, a ponto de dificultar nossa
mobilidade.
Final de tarde é sempre muito agradável. O ar fresco e as cores vibrantes
do horizonte. A brisa que sopra delicadamente suavizando as impressões,
devolvendo a leveza que refresca a alma e reorganiza as emoções e os pensamentos.
Seu olhar pode se elevar acima dos carros, das construções e do movimento das
ruas e se estender sobre aquilo que é natural, imenso e imutável. As cores
resplandecentes do pôr sol e a grandeza do infinito te libertam de tudo que é
momentâneo, passageiro e transitório.
Os pensamentos recuperam a fluidez até atingir a grandeza de não pensar,
como diz a poetisa. Então você pode perceber todas as coisas sem se prender a
nenhuma.
Antes de chegar em casa dou uma passada na casa de um grande amigo e
vizinho.
Interfono:
- Oi! Sou eu!
- Sobe ai!
Rapidamente, subo as escadas e entro.
- E aí?
-Beleza! Vocês vão pro Campus hoje? Ta rolando o congresso, com certeza
vai ter show a noite.
- Vamos lá então, ver qual é.
- Comecei um trampo hoje. Um pessoal que faz parte da organização do
festival. Vamos pra lá na quarta feira que vem.
- Ah! Legal.
- O pessoal é bem estranho, viu? Umas bonitinhas, uma empregada meio
doida e o chefe, bem nervoso, digamos assim. Pensa que o mundo inteiro é contra
ele. Tem um hóspede italiano que sabe que é romano, sabe como?
- Mas o cara é de Roma?
- O cara tem um ar superior, arrogante, inatingível; uma postura
inalterável sabe? Ele acha que brasileiro é inferior, foi o que eu entendi.
- Estrangeiro sempre pensa que brasileiro é inferior, pra eles qui não
passa de um paraíso sexual e os brasileiros são uns preguiçosos e incapazes.
- Esquece o romano! Vou em casa tomar um banho, dar uma descansada.
- Lá pelas oito eu passo lá.
- Ta!
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