segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

 Tem tanta coisa pra gente descobrir, aprender, perceber, sabe? Não dá pra viver mergulhando na angústia, perder o sentido de viver.
- Sentido de viver!
- Inventa um sentido, se ele não existe. Acredite nas coisas! Você vai ver um mundo infinito, maravilhoso, se abrir diante dos seus olhos, fazer seu coração gritar de tanto amor.
- Que engraçado!
- Tô falando sério! Você não conhece o amor?
- Acho que sim!
- Então! Acredite nele. Faz ele crescer, crescer, se espalhar por todos os cantos, todas as coisas, faz ele ficar forte, infinito, indestrutível.
- Meu Deus! Não sei se é do mesmo amor que estamos falando.
- Amor é um só e é nosso. Está dentro da gente. Não é uma pessoa, muito menos um objeto. É uma essência que precisa ser cuidada, zelada, para atingir um estado de pureza incorruptível.
- Abstrato demais.
- Parece, mas é muito real e se nos desiludimos, podemos estar jogando fora nossa chance de ser feliz. Não desista, você precisa estar atenta pra perceber os sinais.

- Acho que tá na hora.

domingo, 2 de novembro de 2014

 Em seguida, tomei um café e fervi as ervas em meu caldeirão de ferro onde na verdade costumava preparar sopa de legumes. No fundo estava achando engraçado o caráter já ritualístico - “Estou levando o negócio a sério”.
Levei o chá para o banheiro e após tomar banho despejei o conteúdo da cabeça aos pés Ficava um cheiro agradável e refrescante. Deixei a pele secar naturalmente, sem usar a toalha, para que o perfume se ressaltasse. Passei a mão nos cabelos para acomodá-lo melhor e pintei os olhos com lápis preto para destacar a expressão.Coloquei o vestido branco que foi usado por minha prima recentemente na sua primeira comunhão. O tecido era leve e acetinado. Desejei uma coroa de flores. Me sentia participando de uma brincadeira proibida e oculta. Recoloquei o anel que ganhara no dia anterior.
Quando meu amigo me viu, achou engraçado e disse que eu cheirava mato e o vestido era esquisitíssimo, mas eu sabia que era seu jeito de me elogiar e agradeci.

- Embora como?
- Vou morar um tempo no exterior, correr mundo.
- Isso não é uma loucura?
- Preciso sair uns tempos. Aqui não dá mais pra mim, não tenho vontade de fazer mais nada aqui.
- Já namorou todas as garotas da cidade né?
- Não exagera. A cidade ficou pequena pra mim.
- Realmente eu acho que seu ritmo é meio alucinante, vive  cheio de gente a seu redor mas está sempre com esse ar de solitário. E se voltasse pra casa de sua mãe?
- Impossível! Não conseguiria viver dando satisfação sobre tudo que fizer. Você sabe como são as mães.
- As mães são protetoras.
- Super-protetoras.
- Você é inteligente, sabe o que é melhor pra você. Vai quando, já sabe?
- Depois do festival.
-Já?
- Chegamos.

Havia já bastante gente na casa e a fogueira já estava acesa. Uma mulher cantava no corredor ao fundo. Imaginei que o rapaz ainda não havia chegado. Cumprimentamos alguns conhecidos e nos sentamos no grande salão. Notamos que algumas pessoas de destacavam pelas roupas claras, pois todos os frequentadores preferiam roupas escuras, mais apropriadas para o clima do evento.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

          Cheguei a um curioso resultado. Deixei como ficou sem me preocupar com o sentido. Era o garoto que eu estava vendo tocar violão todos os dias que estava presente na tradução que virou paródia.
            Rapaz tímido e discreto
Sua figura entorpecida pelo elixir da juventude
produz encantamento no encontro do olhar
Coração intenso
Prefiro a espera ao desespero e a desilusão
Na sinceridade dos seus olhos o tempo adormece
Quando o vejo minhas esperanças suspiram
Seu olhar é o poço onde depositei meus desejos
                            nestes olhos grandes, olhos negros, reflexos de sua sensibilidade
Oh! Anjo sem pureza dê-me mais esperanças.
Não sou uma fada para te parecer sobrenatural
Mas, mulher livre eu posso
Vencer meus medos e te receber com paixão
E no paraíso de seus carinhos, transcender.
Seu olhar forte e sensível
Parece que dissimula
Como nos belos sonhos que os grandes homens
Ao longo de seus anos seguem em meditação
Como o brilho das estrelas e o azul do céu
Vencidos todos os humanos sofrimentos
como Ulisses ao final de sua odisseia
Amadurecer esculpido por sentimentos
Seu olhar doce como mel
Na natureza viva e imensa
onde homem feito se torna
onde toda promessa se torna realidade
resplandece para sempre como um astro fecundo

no calor majestoso do homem completo.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Achei conveniente descobrir alguma coisa sobre rituais mágicos e encontrei um pequeno livro para adolescentes que comprara em uma banca de revistas havia algum tempo. Continha muita crítica ao cristianismo, exaltação a uma Deusa e alguns tipos de rituais. Verifiquei em uma pequena tabela a influência dos planetas: “-3 horas da noite, planeta Vênus: amor, afeição, uniões, casamentos e arte”. E ainda: “um iniciado volta-se para causas naturais, vivendo uma vida mais natural e consciente. Todos passam a viver em harmonia com a natureza”. Para cada hora um planeta diferente influenciava determinadas coisas.
Na verdade, não havia nenhum mal nos propósitos, muito pelo contrário; não era necessário ficar temerosa. Era importante comparecer, pois de certa forma selamos o compromisso. Era o último dia do evento e o encerramento ia ser de forma no mínimo curiosa, uma vez que não deixaríamos de ser cristãos, absolutamente; não iríamos para a fogueira.

Teria ainda algumas horas antes de sair. Resolvi traduzir um poema francês, porque eu estava alucinada com a língua e Lamartine estava sobre a mesa, na minha sala pouco iluminada.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Quando eu ia saindo, peguei a bolsa, mas havia esquecido de soltar a Princesa e fechar a porta.
Ao chegar na área e ver aqueles livros ali, não resisti à tentação de levar apenas a gramática. Não encontraria igual em nenhum lugar e seu destino não era seguro ali. Aquelas folhas envelhecidas, eu sozinha ali com a bolsa, não havia premeditado, foi irresistível.
Saí assustada com tamanha ousadia. Aquelas palavras que havia lido naquela gramática não saíam da minha cabeça, fiquei completamente seduzida. A aula de latim do dia anterior e a NOVAGENDA da professora - nominativo, vocativo, genitivo, dativo, acusativo, declinações, raciocínio lógico,  tudo culminou naquele gesto arriscado.
Passei na casa do meu amigo para confessar a ousadia. Ele disse que eu ia ser descoberta, me amedrontou e depois riu do pequeno drama que fez. Combinamos de ir juntos ao campus para participarmos do ritual.

Cheguei em casa e providenciei algumas ervas para tomar o banho que outrora eu achara engraçado; mas para aliviar a tensão, resolvi fazê-lo, uma vez que participaria de um ritual de magia e as ervas eram de fácil acesso. Antes, preparei um café e não tive coragem de olhar o valoroso objeto adquirido de forma escusa.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

É um tesouro – pensei: Três coisas que resolveriam grande parte dos problemas de um povo. Talvez a juventude não sofresse tanto se adquirisse qualidades tão nobres. A gente não fica sabendo dessas coisas.
A garota chegou e interrompeu minhas reflexões caretas e inúteis. Eu sentia uma simpatia incrível por ela. Sua simplicidade, seu estilo próprio e a postura firme...
- Olha só quantos livros! Como ele tem coragem de deixar tudo jogado desse jeito?
- É! Todos ótimos.
Ficou olhando sem se aproximar, talvez por causa da poeira excessiva.
- Seu pai ainda não chegou?
- Daqui a pouco ele vem, vai trazer uma amiga que tá grávida.
- É dele?
- Não! Ninguém sabe quem é o pai. Ela não fala.
- Que doido! Que coisa, heim?
- Talvez nem ela saiba.
- Menina! Como pode isso? Que loucura!
- Total.
Fui ao corredor e abri um lindo baú azul. Dentro havia um número enorme de discos de vinil.
- Vou chamar o segurança para me ajudar com o baú.
- Vai lá!

O segurança achou que era muita animação, mas na verdade era uma urgência, um projeto de salvação de patrimônio cultural. Eu pagaria caro por aquilo. Os discos estavam muito sujos. Precisariam ser lavados um a um, pois a sujeira estava impregnada. Tirei a poeira superficial de tudo. Retirei as prateleiras dos livros e pedi que recolocasse a grande lona preta sobre as que ficaram, repletas de louças e garrafas de cerveja. Voltei à cozinha e fui à toillete lavar as mãos e o rosto.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014


A garota estava na cozinha tomando café e conversando gentilmente com a empregada.
Fui para o corredor e desamarrei as cordas que prendiam a lona nas prateleiras. Comecei a tirar os livros e colocá-los sobre uma mesa redonda que ficava na parte frontal da área. Depois tiraria a poeira mais criteriosamente.

Era uma bela coleção com inúmeros livros, que iam desde Rui Barbosa até lançamentos mais recentes, livros sobre política, cinema, uma coleção de crítica literária, Alan Poe, Kafka, Goetche - “o príncipe Egmond”, uma peça teatral, uma gramática latina de 1957, onde se lia: “O latim não é mais falado em parte alguma, mas é estudado nos cursos secundários de quase todas as nações, por ser, com razão, considerando fator eficiente de cultura, instrumento indispensável para o conhecimento profundo das línguas neolatinas e meio incompatível para educação da inteligência, disciplina do raciocínio e formação do caráter”.