segunda-feira, 30 de junho de 2014

Aquela manhã tinha um ar diferente. As flores pareciam tímidas, as cores empalidecidas. Talvez a chegada do final de semana as afetasse como a nós, cansando-as em suas próprias rotinas. Talvez se cansassem como nós e enfrentassem desafios, inclusive o de permanecerem viçosas, alegres e serenas apesar das longas jornadas de uma semana inteira.
Feito o passeio matinal com a Princesa, além de achá-lo realmente necessário era uma forma de esperar que o escritório, ou a casa, entrasse em ritmo de trabalho. Valia a pena ver sua satisfação quando encontrava outros de sua espécie e espaço suficiente para dar longas corridas, ver crianças brincando, muitas pessoas. Era incrível sua inteligência e sociabilidade. Talvez fossem características que tornam a raça tão valorizada. Um justo valor, um dálmata.
Depois do passeio eu me sentia tranqüila em deixá-la presa para que o ar circulasse por todo o ambiente, uma vez que as portas poderiam ficar abertas. Todos já estavam de pé e o chefe já estava no escritório. Nos cumprimentamos pela janela e ele demonstrou alguma simpatia.
Fui à cozinha tomar um café e perguntei a empregada porque tantos livros ali no corredor, misturados com utensílios domésticos e caixas de cerveja. Ela respondeu que estavam lá desde que chegara e nunca teve a idéia de mexer, assim como ele também nunca lhe pediu que fizesse qualquer coisa com eles.
Tomei coragem e fui ao escritório falar sobre o assunto:
- Me desculpe por tomar a liberdade de intrometer, mas todos aqueles livros não podem ficar como estão; serão destruídos pela chuva, pelo sol e pelo vento.
- E a senhora sugere o quê? Disse com ironia.
- Sugiro que sejam retirados, evidentemente – retruquei.
- Não há onde colocá-los.

- Mas a casa é tão grande! É um pecado fazer isso. Quantas pessoas gostariam de ter um só livro em casa e não tem?

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