Em seguida, tomei um café e
fervi as ervas em meu caldeirão de ferro onde na verdade costumava preparar
sopa de legumes. No fundo estava achando engraçado o caráter já ritualístico - “Estou
levando o negócio a sério”.
Levei o chá para o banheiro e após tomar banho
despejei o conteúdo da cabeça aos pés Ficava um cheiro agradável e
refrescante. Deixei a pele secar naturalmente, sem usar a toalha, para que o
perfume se ressaltasse. Passei a mão nos cabelos para acomodá-lo melhor e
pintei os olhos com lápis preto para destacar a expressão.Coloquei o vestido
branco que foi usado por minha prima recentemente na sua primeira comunhão. O
tecido era leve e acetinado. Desejei uma coroa de flores. Me sentia
participando de uma brincadeira proibida e oculta. Recoloquei o anel que
ganhara no dia anterior.
Quando meu amigo me viu, achou engraçado e disse que eu cheirava mato e o
vestido era esquisitíssimo, mas eu sabia que era seu jeito de me elogiar e
agradeci.
- Embora como?
- Vou morar um tempo no exterior, correr mundo.
- Isso não é uma loucura?
- Preciso sair uns tempos. Aqui não dá mais pra mim, não tenho vontade de
fazer mais nada aqui.
- Já namorou todas as garotas da cidade né?
- Não exagera. A cidade ficou pequena pra mim.
- Realmente eu acho que seu ritmo é meio alucinante, vive cheio de gente a seu redor mas está sempre com esse ar de solitário. E se voltasse pra casa de sua mãe?
- Impossível! Não conseguiria viver dando satisfação sobre tudo que
fizer. Você sabe como são as mães.
- As mães são protetoras.
- Super-protetoras.
- Você é inteligente, sabe o que é melhor pra você. Vai quando, já sabe?
- Depois do festival.
-Já?
- Chegamos.
Havia já bastante gente na casa e a fogueira já estava acesa. Uma mulher
cantava no corredor ao fundo. Imaginei que o rapaz ainda não havia chegado.
Cumprimentamos alguns conhecidos e nos sentamos no grande salão. Notamos que
algumas pessoas de destacavam pelas roupas claras, pois todos os frequentadores
preferiam roupas escuras, mais apropriadas para o clima do evento.
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