Os móveis eram quase rústicos, amplos sofás e uma escultura em madeira que
se destacava pelo seu aspecto erótico - até poderia descrevê-la mas deixo que a imaginação do possível leitor, caso se interesse pela imagem a visualize ele mesmo. Nas paredes, muitos quadros de alguns
artistas conhecidos, sendo a maioria, regionais.
A pequena sala que funcionava como escritório ficava logo na entrada. Ao
lado da parede oval, que não separava completamente a sala de jantar do amplo salão,
outra parede destacava e ao mesmo tempo restringia o acesso à área íntima da
casa. Formava-se um corredor cheio de totens, com traços assustadores, causando
uma sensação de medo e admiração.
Os quadros exigiam atenção especial e despertava o senso estético. Mesmo
não sendo todos belos eram com certeza, excelentes. Havia alguns auto-retratos de
mulheres bem distintas e elegantes, feitos a lápis.
Do lado esquerdo, a parede oval se abria para a cozinha, facilitando
assim o serviço à mesa, que seria intenso nos dias subseqüentes.
A empregada era uma moça de aparência uma pouco bizarra. Morena, muito
magra, cabelos muito negros e encompridados por um indiscreto aplique, com
certeza era de outra região. A mistura de negro com índio, se não a tornava
bonita também não ocorria o contrário. Usava cabelos soltos, maquiagem, uma
roupa muito justa e saltos muito altos.
Várias pessoas almoçaram. Duas moças muito bonitas que aguardavam na sala
de estar, o segurança que aparecera naquele momento, um senhor alto e forte
como geralmente são os seguranças, de idade respeitável, um italiano, amigo de
longa data do dono da casa e que sempre passava férias com ele. Era um senhor
magro, de aparência saudável e bem cuidada, modos muito refinados, um ar
superior e estatura média.
O anfitrião era o oposto do amigo. Baixo e muito gordo, com óculos de
lente grossa e pesada e modos grosseiros, mas ao mesmo tempo não deixava de
transparecer alguma doçura. O italiano entrara no escritório no começo da manhã
para pegar a chave do carro e só voltou quando o almoço estava sendo servido e
todos já haviam se acomodado à mesa.
Uma loirinha muito jovenzinha que entrara várias vezes no escritório
demonstrando muita intimidade, fazendo ligações telefônicas, carregando o
telefone móvel de um lado para outro, pedindo dinheiro para fazer supermercado
e com ar de dona da casa, ajudava a empregada a servir o almoço e logo depois
se juntou ao grupo para almoçar.
Todos almoçaram alegremente e bastante a vontade, fazendo alguns
comentários sobre o festival que aconteceria na próxima semana. Seria alugada uma casa em que todos se
instalariam por cinco ou seis dias. Deveria ser uma casa grande para comportar
toda a equipe. Seriam duas ou três meninas para ficar no palco, um segurança,
um motorista, a empregada, entre outros, caso fosse necessário. O italiano
voltaria antes para sua terra e não ficaria para o evento.
A empregada e o segurança foram a únicos que não se sentaram à mesa. Logo
após a refeição eu e a loirinha fomos ajudá-la a tirar a louça. As garotas
foram para a sala de estar. Os dois foram para seus quartos e só voltariam após
as 14h.
A cozinha era muito ampla. Copa, despensa e a dependência da empregada.
Na despensa havia muitos armários cheios de utensílios domésticos. Muitos
copos, pratos, taças, bandejas, várias caixas vazias de cerveja. Grande parte
de tudo aquilo seria levado para servir os camarins dos artistas que se
apresentariam no palco que estaria sob a responsabilidade daquela equipe.
A empregada avisou que era muito difícil trabalhar com aquele senhor:
- A casa está sempre cheia de gente o tempo todo e ele tem mania de achar
que está sempre sendo roubado por quem trabalha com ele. Na hora do almoço
sempre tem visitas, geralmente garotas que não fazem nada da vida e acham que
são modelos; nunca ajudam sequer a tirar a louça.